Vera Cruz



Naquela manhã fardei-me com o orgulho que me ensinaste, vi-me muitas vezes ao espelho antes de partir, ias ficar deslumbrada pelo jeito que duvidavas que tinha para engomar. Ias sorrir por estares enganada, beijar-me a testa e dizer que ser teu filho basta.

No nosso jardim esperavam-me os camaradas que não chegaste a conhecer mas tenho a certeza que os receberias de braços abertos, convidando-os para entrar. Não o fizeste. Como podias? Fazes-me falta.


Enchi o peito e fui. Assim que cheguei ao Cais da Rocha do Conde de Óbidos, senti amor, tanto amor. As mulheres agarravam-se ao pescoço dos homens, limpando as lágrimas em lenços brancos e sofredores, desejando que aquele filme a preto e branco fosse mentira. As crianças levemente petrificadas, num medo curioso, deixou-as temporariamente desinteressadas da fantasia. As despedidas foram devastadoras e tudo o que senti foi inveja.

Formamos os nossos pelotões. Marchamos com a força do pé esquerdo a marcar a terra, sem mastigar o passo e quando a continência se revelou, sabíamos que era a nossa hora.

Olhei para cima e vi o navio com o teu nome. Vera. Minha Vera Cruz. Fiquei a sorrir como uma criança na manhã de natal. Um milagre, pensei eu. Ali soube que estavas comigo. Não me choraste. Não me acenaste no meio da multidão mas levei-te comigo. Fui em ti.


Hoje, meses passaram e o que os meus olhos viram, a memória não apaga. As fazendas destruídas, povoações condenadas e o teu filho, carregava a boca com tudo o que lhe estava à mão, representando a Artilharia, louvando Santa Bárbara. Rezo todos os dias para não tropeçar em mais nenhum corpo mas se no meu tropeçarem, sei que estarei nos teus braços.


Minha mãe,

tantos trouxeste

e poucos levarás.


Texto de SANDRA MAY


Nota para o leitor:

A guerra não é amor.

A guerra nunca trouxe a liberdade.

A guerra é tudo aquilo de que a Humanidade precisa de se afastar.



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