Tu podes ganhar força mesmo na escuridão!



Dispenso apresentações. Não irá servir de nada para o que tenho a dizer. Muitas vezes, é a escuridão que nos envolve que acaba por nos iluminar. De que vale saberes o meu nome, se não conheces algo verdadeiramente meu? O nome é o que menos importa. Esquece o meu nome. Ouve apenas as minhas palavras, com toda a tua atenção.


Precisas de saber que foi, talvez, num dia tão parecido como o teu que conheci a verdadeira escuridão. Caí. Caí conscientemente. Foi como se não soubesse nadar e tivesse saltado para um poço fundo e sujo. Poderia tentar explicar-te como tudo aconteceu, mas a minha visão continua turva com a força das ondas que me trazem repentinamente memórias dolorosas. Gostava de te ajudar. Acredita, gostava. É o que eu mais quero. Mas só hoje sei que a verdadeira ajuda está em nós. A verdadeira vontade de querer sair, sabes? Isso ninguém nos dá.


Pensei na minha involuntária fragilidade. Quem pediria aqueles arrepios? Deixei o meu corpo ir na corrente que me engolia e puxava para baixo. Pensava que iria acabar por encontrar o chão. Pensava que iria acabar por estabilizar naquela sujidade fria do desespero. Enganei-me. Como poderia não enganar-me se tudo o que sabia era o meu nome. Esse chão que tanto esperava sentir não existia. O fim, não existia. Tudo o que existia era aquela queda. Uma longa e constante queda. Tentei parar. Mas como parar uma queda? Um pássaro saberia fazê-lo. Bastaria abrir as suas asas. Para alguém que nasceu sem asas, a única esperança é o chão. E o meu medo era nem ter este chão para poder parar de cair. Por momentos, este medo que senti aqueceu-me a esperança por dentro – «sensação diferente» – pensei para mim num sufoco neutro.


Não foi suficiente. Esperança? Talvez nem fosse uma sensação real. Eu já não sabia o que era sentir. Muito menos sabia o que era viver. Deambulava por pensamentos que confundia com sentimentos. Talvez emoções. Tentava fabricar estes elementos no meu intelecto numa tentativa de voltar a viver, só um bocadinho. Numa tentativa de me agarrar a uma asa qualquer que me travasse. Aquela queda enterrava-me aos poucos numa vazia solidão.


Vi-me só. Estava só. Não falo daquela solidão que sentimos no intervalo da escola quando não temos amigos. Não. Nessa solidão conseguimos ver vida a manifestar-se em nosso redor. Não a conseguimos ignorar, por mais que lhe voltemos as costas. Estou a falar de outro lugar. Aquele lugar em que observo o meu próprio reflexo e tudo o que vejo é um vazio, frio, mas que me observa de volta com um sorriso sombrio. A única coisa que já conteve cor naquele sítio estava despedaçado no chão, algo como um saco colorido que tinha acabado de se rasgar e tudo o que continha, o bom e o mau, se tivesse perdido para sempre na infinita escuridão. Quando nos vemos desta forma, neste lugar onde a própria e natural gravidade se recusa a invadir, sabemos que estamos perto do nosso fim. Sabemos que aquilo é o fundo do poço sem fundo. E eu pisei-o, sem nunca o sentir.


Não existia tempo. Não existia vida. Não existia nada do que era suposto existir. Eu deixei de existir. A minha boca estava seca dos gritos que não se ouviam, e os meus olhos mortos no silêncio que me cortava todos os dias. Desisti. Não sabia como sair daquele lugar fétido e gelado. Já sentia a minha alma a decompor-se. E, sem nada mais esperar, num dia que não me lembro, dia após dia tudo ficou mais confortável. Aceitei. Aceitei que poderia ficar lá por tempo indeterminado. Aceitei aquele lugar como meu. E esse foi o último dos meus muitos erros. Erros que nunca devia ter-me permitido cometer. Ainda em queda, ainda com aquele vento a empurrar forçadamente as minhas costas, decidi. Decidi que era ali que a minha insignificância ia terminar.


Deves estar agora a perguntar-te, num tom medroso e curioso, o porquê de tudo isto. Porquê afinal? Porque eu não acreditei que houvesse alguém no mundo capaz de me amar. E esse foi o meu primeiro erro. É triste, não é? Tão triste como a insuportável ideia da incompreensão do mundo. Consumia-me os ossos. Ai, como os consumia. Até que percebi que nem a mim eu me compreendia. Morri. Mas se te conto esta história é porque consegui sair de lá, ouviste? Eu saí! Agora escreve-a. Escreve-a para que muitos a possam ler. Saí conhecendo apenas o meu nome. Renasci. Renasci quando percebi que o nome era só para os outros, e para mim era tudo o resto. Renasci quando me predispus a reconstruir-me por dentro. Renasci quando deixei de esperar que alguém se não eu o fizesse. Ninguém o poderia fazer melhor que eu. Claro, tinha a vantagem de conhecer os cantos à casa. A casa interior que tantos se esquecem de cuidar. Não sejas mais uma dessas pessoas. Cuida do que é teu. Melhora o que é teu. Melhora-te todos os dias, até ao fim dos teus dias. Quando deixares de o fazer, cais. Não caias. Não escolhas fazê-lo. E esperar que outros te amem antes de ti mesmo é o primeiro tropeçar. Esperar que te compreendam antes de ti mesmo é o segundo. O último erro, bem, esse já sabes qual é. Não o faças.


Ninguém pode caminhar por ti. Mas podes pedir força para voltar a andar. Pede de todas as mil maneiras que conseguires. Mil e uma, se souberes mais. Mas não permitas que te falte a força para andar. Não peças que te empurrem. Nunca! Pede a força para caminhar pelo teu próprio passo. E mais tarde, já no teu caminho, pede força para conseguires dar força para ajudar alguém a caminhar por si. Se precisares de amor, oferece primeiro. Todo o amor que tiveres. Prometo que só te sentirás mais cheio. E quando o receberes, recebe-o por inteiro e sem desconfiança. Se precisares de chorar, chora. Se precisares de rir, ri. Ri muito. Mas nunca, nunca penses que a nuvem negra que te assombra a mente é normal. Não é. Nunca foi. Nunca será. O nosso estado natural da vida é sermos felizes. Não deixes que te convençam do contrário. Cuida de ti, porque tu és o amor da tua vida. Agora que me ouviste com atenção, vai. Vai e escreve.


E foi este o desabafo de alguém que parecia ter asas. Aprendeu a amar-se?



Texto de SANDRA MAY

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