desamor à primeira vista



Não vou mentir. Procurei a pessoa ideal para mim. Não deixei acontecer naturalmente, não. Eu conheci quem quis conhecer. E, como foi bom conhecer alguém como aquela que encontrei.


Não me aproximei de imediato, deixei que o tempo chamasse pelo tempo certo e, sem esperar muito mais, o tempo trouxe: a chuva. Observei a agitação e velocidade com que a multidão desapareceu. Os passos eram apressados e incertos. A gritaria que ecoava em todas as direções incitava toda a massa humana a fugir da pureza da água. Mas ela não. Permaneceu sentada no seu banco, de costas voltadas para mim. Aproximei-me. O meu tempo tinha chegado. Assim que me sentei a seu lado, senti-lhe a solidão sem precisar de lhe tocar. Foi destino. Assim como a confirmação de que ainda tínhamos muito para viver. Os olhos secos de emoção e a frieza nos seus lábios foram o sinal de que era ali que eu deveria estar. Tinha encontrado, finalmente, quem me recebesse sem questionar. Alguém com espaço suficiente para eu entrar sem desconfiar. Alguém que simplesmente me aceitasse. Senti profunda gratidão.


Observei-lhe as roupas ensopadas e os seus músculos imóveis. Não tremiam com o vento gélido que lhe percorria a pele. Não, ela não. Julguei mesmo, apenas que por breves instantes, que ela era parte de mim. Não lhe ofereci o meu guarda-chuva. Ofereci-lhe a minha mão. Não me conseguiu encarar, mas pediu-me que ficasse. Confessou que se sentia sozinha e, antes de conseguir perguntar qual era o seu nome, entregou-mo num sussurro que ainda hoje tão bem guardo. O nome pálido deixou-me ainda mais perplexo de curiosidade. Tinha de a conhecer. Tinha de a beijar. Ficamos por diversas horas sem falar, partilhando apenas o ar que nos cercava. A minha companhia trouxe-lhe tranquilidade. Sabia que já não estava sozinha. Sabia que nos iríamos ter um ao outro.


Os dias que se seguiram permitiram-me crescer. Cresci muito. Expandi a minha existência a um nível que me era desconhecido. Ela estava a dar-me muito mais do que uma oportunidade de me tornar maior: estava a dar-me vida. Aquela vida que tanto ansiei ter. Não queria nem conseguia sair de perto dela. Fazia questão de acompanhá-la para todo o lado. Tornamo-nos inseparáveis. Tão inseparáveis que parecíamos ser um só. Já não dávamos as mãos como antigamente, agora era a vez dos nossos braços assumirem a força que nos unia. Eu tinha sempre vontade de a abraçar. E como ela abraçava tão bem.


Todavia, com o tempo as mudanças tornaram-se evidentes e pesadas. Ao início, a mulher que tanto desejava dava-me tudo, sempre. Completei-me tanto. Lembro-me com vertiginoso rigor daquele dia. O dia em que a nossa relação se afundou em dúvidas. A destruição pairou sobre nós como uma inevitável catástrofe. O sol penetrava a ampla e translúcida janela refletindo a imensidão de brancos que aquela espaçosa e invulgar sala continha. Assombra-me a tão bem vincada memória daquele pequeno arco-íris criado sobre as molduras que se encontravam em cima da secretária. Os raios não tinham força para nos aquecer, mas lembraram-nos que vivíamos no frio. Pensei em voltar a dar-lhe a mão, naquele confortável e moderno sofá, mas a porta estava entreaberta e prestes a fechar-se. Vi um raro sorriso nos lábios dela e vi, vi também nos olhos daquele homem que a sua intenção era separar-nos. Respeitei a privacidade dela e saí. Esperei uma hora. Assim que a porta que nos dividia se voltou a abrir, fingiu não me ver. Continuou em frente ignorando a minha presença. Segui-a. Mas Ignorava-me a todo o instante, reclamando que já não era feliz e gritava descontroladamente, dizendo como se sentia tão pequena comigo sempre tão próximo. Dor não é a palavra certa para descrever o que senti naquele momento. Então, fiz o que podia. Fiz o que melhor sabia. Cheguei-me ainda mais perto. Senti que a estava a perder. O que poderia eu fazer? Não estava pronto para desistir. Pois era destino. Não?


Quando ela acordava eu estava lá. Quando ela vestia uma roupa nova eu opinava mesmo que não gostasse de ouvir. Quando ela queria passear, eu fechava-a dentro de casa para que apenas eu lhe pudesse ver o sorriso, se sorrisse. Quando alguém se aproximava dela, eu desviava-a para bem longe, longe da vista do coração. Quando ela ia dormir, eu continuava lá e, mesmo quando ela abria os olhos, na madrugada, com medos, era eu que lhe sentia o interior. Conquistei-lhe tudo. A ela, ao seu mundo, até sermos apenas nós os dois. Todo aquele tempo, e sentia que ela ainda não sabia quem eu era. Que ingrata. Mas pensei para mim como era bom estar completamente entregue a ela. Dediquei-me apaixonadamente à nossa vida, ao nosso futuro.


Num passado ainda próximo, a mulher que eu conheci num simples dia de chuva, num simples e inocente banco verde de jardim, não me quis mais. Discutiu comigo à frente do espelho. Implorou-me para que fosse embora. Eu não sabia o que tinha feito de errado. Afinal de contas, eu estava sempre lá. As lágrimas que lhe queimavam a face rosada e cansada fizeram os seus olhos olhar os meus, talvez, pela primeira vez. Num tom sôfrego e acusatório questionou-me: «Já não te conheço… quem és tu? QUEM ÉS TU AFINAL?». Eu não tive outra alternativa, não podia faltar-lhe à verdade. Conhecia-a demasiado bem. Ao que parece, bem melhor do que ela me conhecia a mim. Conhecia-a quase como se a pudesse controlar. Ouvia-lhe os pensamentos. E, naquele momento, onde se criou uma pausa constrangedora, respondi, olhando-a bem nos olhos: «A tua depressão».


Texto de SANDRA MAY



Publicado na 4ª Edição da Revista PROMETHEUS

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