Comandante



Ouvi tantas histórias daqueles que regressaram. Nos homens que eu admirava, as pupilas escuras e despertas avolumavam quando as palavras procuravam o melhor caminho da memória para as bocas que eu ouvia tão atentamente. Os meus ouvidos criavam na mente as linhas do cenário que pensava que, um dia, seria meu. Dava por mim a pensar na sorte que tinham. A fome de querer conhecer a verdade por detrás de todos os teatros que ensaiei, de forma exaustiva, era demasiada. Pedi tanto. Pedi tanto que fosse a minha vez de ir, e viver o que tão poucos ficavam para contar. Era o meu propósito.


Lembro-me com vertiginosa precisão do dia em que o meu nome apareceu no topo da lista. O peito saltou e os meus pés permaneceram imóveis. Pesados. Colados ao chão pelo peso da responsabilidade. Os lábios petrificaram. Mas os meus olhos, esses encheram-se de orgulho e patriotismo. E, numa fração de segundos, senti o meu ego a dissolver-se. Deixei de ser eu, e passei a ser o meu posto. A minha farda. Dei lugar aos meus homens. Desci pela página, já chamuscada, memorizando todos os nomes e aí, soube que já me pertenciam. Eram parte de mim.


Atravessei a parada, calcando vagarosamente as pequenas pedras esmigalhadas de tantas formaturas matinais e treinos de ordem unida. Não tinha qualquer discurso preparado. Nem uma frase solta. E, por mais que tentasse agarrar alguma palavra para lhes transmitir, essas pareciam fugir quando lhes observava o medo gélido e inamovível que as suas faces tão bem transpareciam. O meu sonho acabava de se tornar realidade. Mas como tornar o meu sonho nos sonhos dos outros? Não sei. Tive formação em tantas áreas, mas nesta? Nunca. Creio que não seja algo que se possa ensinar. Apenas me coloquei de frente para o batalhão assumindo, com postura inquebrável, o derradeiro privilégio de poder exercer o meu poder de comando em prol da nação. A vida daqueles militares estava nas minhas mãos. Nas minhas, e nas de Deus. No momento em que me virei para eles, vi-os. Vi para além dos seus corpos físicos. Vi almas numa forte união forjada pelo sacrifício. Uma união que já se tinha tornado familiar. Guardei a emoção de os abraçar para a missão que nos competia e, no meu mais grave e confiante tom, puxei bem de dentro a força que eles geraram em mim, e gritei-lhes, oferecendo-a de volta. Disse o que nunca antes ouviram:

- “Hoje, olho para vós com orgulho. Todo o trabalho que tivemos até hoje, vai finalmente ter um lugar na história. A nossa história. Partiremos como homens mas regressaremos como heróis. União é o que vos peço. Somos nós que sentiremos a dor do camarada. Somos nós que cuidaremos das feridas do amigo e somos nós, que rezaremos para não perder um irmão. Nenhum de vocês ficará para trás! Como vosso Comandante guiá-los-ei. Deixem ficar o medo em terra. Troquem-no por coragem. Pois para onde quer que olhem, eu estarei lá, certificando-me de que nenhum dos meus homens se perca. Resta-me acreditar que Deus estará connosco.”

Quando a boca se cala, vejo o que há muito se tinha perdido desde o início da guerra: esperança. Em mim a colocaram, para além das suas próprias vidas. Colocaram-me o futuro. O seu futuro.


Pisamos a terra que nos esperava. Se havia maldade no mundo, era ali. O cheiro dos corpos que não se enterravam consumia-nos o espírito. O nevoeiro que nos cercava, cegava a confiança que trazíamos em nós e as armas, que nos afirmavam, tornaram-se inofensivas. Naquele momento, só pensava como alguma vez fui capaz de desejar estar na guerra como uma criança desejava a noite de natal. Ao lado daquela aterradora realidade, o mundo tornou-se insignificante. As cores esvoaçavam para tons de cinza sempre que um gatilho se premia, tal como as histórias que pensava que iria ter.

Agora recordo e escrevo em mim, marcando a carne que já não sinto, todas as palavras que prometi aos soldados e que agora me pesam na consciência. Este peso não me deixa dormir. Peço perdão. Como peço perdão a todos aqueles que me ouviram? Se pudesse, se tivesse algum poder, pegaria em todos e impediria a nossa partida.

Resta-me acreditar que os homens que deixei para trás tomariam a mesma decisão. A chuva pesava nas nossas fardas, tornando-as escuras e fracas. A terra que nos enterrava as pernas e que já nos salpicava a cara, lembrava-nos a razão pela qual estávamos ali e o quão insignificante esta se tinha tornado. As mochilas esmagavam os ombros cansados, as mãos mal conseguiam empunhar as armas. Mas não parámos, cerrámos os dentes e os pés continuaram o trabalho que a mente desenhava. Estávamos tão perto... convenci-os de que o nosso limite ainda se encontrava longe mas, rapidamente, tudo mudou. Surpreendidos pelo inesperado e ensurdecedor cavalgar da morte, a fé que nos sustentava abandonou o espírito. Três bons homens. Três baixas.

Resta-me acreditar que eles sabiam que não foi o sangue que me impulsionou a seguir em frente, foram as feridas que desfizeram os seus corpos e, assim que as vi, tive a certeza de que não poderiam ter outro destino.


A chuva rasga a pele deste corpo que já não se aguenta, que se arrasta e que deixa marca por onde passa, nesta longa marcha, fraturante e fatídica, onde me encontro à frente dos que com muito esforço sobreviveram... sobrevivem. Estes são os homens que lidero. Foi para isto que treinámos. Mas nada nos prepara para a perda. Terei de continuar a viver sem as vidas que pensava que teria para sempre. Agora sustento as lágrimas e guardo os soluços da aflição. Não é hora de me entregar. Só me resta acreditar que aqueles que deixei no grito do desespero me perdoem.


Texto de SANDRA MAY


Publicado na 3ª Edição da Revista PROMETHEUS


Nota para o leitor:

O mundo tornou-se um lugar estranho.

Onde a guerra é promovida e o amor julgado.

Sê a esperança que o mundo precisa.

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